terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Homenagem ao Santiago Andrade!


Não estou aqui para julgar o posicionamento dos policiais ou repudiar o ser asqueroso e anojoso responsável por atingir o cinegrafista Santiago Andrade com um rojão na última manifestação sobre a passagem de ônibus, no Centro do Rio. Nem tentar entender como uma revolta de R$3,00 pode tirar a vida de alguém que não tem preço. Muito menos fazer críticas à um país onde as revoltas e manifestos acontecem sem a doce ilusão de cantos e gritos de guerra, mas sim, armas de fogo e dores de todos os tipos.

Hoje estou aqui, de coração aberto, para lamentar a morte de um companheiro de profissão. Não o conhecia, mas me pareceu um grande profissional, responsável e apaixonado pelo jornalismo.

Hoje estou aqui para entender mais uma vez até quando acontecerá este desrespeito com a nossa profissão, tão digna e útil como qualquer outra? Esta cena era prevista. A morte então, tentávamos apenas adivinhar quem seria a vítima. Perguntem à repórter da TV Folha, Giuliana Vallone como é tomar um tiro no olho por uma bala de borracha... Ou ao Pedro Vedova, repórter da Globo News como é voltar de um cansativo dia de trabalho com a testa sangrando.




O meu apelo neste texto é um pedido de uma jornalista revoltada que quer mudanças! Um pedido de uma jornalista amedrontada pelo vandalismo! De uma profissional apaixonada por sua profissão que quer ter seus parceiros de trabalho por perto! De alguém que sonha em voltar pra casa no final do dia. 

Que Deus conforte os corações da família deste jornalista e dê coragem à sua filha Vanessa Andrade para continuar seguindo na profissão em busca de melhorias! Encerro o pedido com a carta que a moça dedicou ao seu pai em sua rede social.

"Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai. Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: vou usar seu sobrenome. Ele riu e disse: então pode!

Quando fiz minha primeira tatuagem, aos 15, achei que ele ia surtar. Mas ele olhou e disse: caramba, filha. Quero fazer também. E me deu de presente meu nome no antebraço.

Quando casei, ele ficou tão bêbado, que na hora de eu me despedir pra seguir em lua de mel, ele vomitava e me abraçava ao mesmo tempo.

Me ensinou muitos valores. A gente que vem de família humilde precisa provar duas vezes a que veio. Me deixou a vida toda em escola pública porque preferiu trabalhar mais para me pagar a faculdade. Ali o sonho dele se realizava. E o meu começava.

Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu.

Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade.

Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha.

Obrigada a todos. Ele também agradece. Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai".

Um comentário:

  1. nossa... difícil ler e não sensibilizar-se... Impossível não nos imaginarmos nessa situação correndo os mesmos riscos. Riscos injustos e impugnantes. Até quando?

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