terça-feira, 10 de maio de 2016

Legião de Imbecis

“Redes sociais deram voz a legião de imbecis” Umberto Eco, 2015

Imagem do chargista Tigre
O escritor Umberto Eco deve ter se revirado no túmulo nos últimos meses. Também pudera! Eram tantas informações vindas de sites suspeitos e juízes do século XXI defendendo sua verdade absoluta que as redes sociais tomaram forma, braços e pernas. As manchetes tendenciosas circulavam feito gente, na disputa de que existe o lado certo e o errado. Os formadores de opinião traduziam, em palavras, seus sentimentos de alegria e dor. E os leitores? Bem... A maior parte resumia seu embasamento político e social através da linha fina e balbuciava o que leu (mesclando preconceitos interiores) aos amigos da roda de cerveja. Ah, se a gente pudesse filtrar o que lê!

Esse fenômeno que acontece nas redes sociais é o reflexo da popularização da internet, disputa de ego e ignorância de curiosos. As pessoas nunca foram tão participativas quanto estão sendo agora, mas há preocupação neste comportamento. Afinal, todos precisam ter opinião formada sobre tudo? E mais: Existe a necessidade de expor a opinião sobre todos os assuntos?

Durante uma entrevista no Programa do Jô, o professor de História da América da Universidade Estadual de Campinas, Leandro Karnal traduziu de uma forma bem humorada essa epidemia de opiniões nas redes sociais: “Há uma parte específica do corpo que é como opinião, você pode dar, é sua, seja livre! Mas não é obrigatório”. O que as pessoas devem analisar é a quantidade de informações verídicas que chegam até elas, a condição de opinar sobre o assunto e quantas mudanças essa opinião pode trazer para a sociedade.

Há uma parcela de internautas que, até a chegada das redes sociais, não tinha voz. Não tinha plateia. Não tinha, sequer, opinião. Não lia, não buscava informação. Não ligava se o país estava de um jeito ou de outro, pois não “mudaria em nada na vida mesmo”. Não se incomodava com o governo, não agia. Vivia dentro de seu próprio mundo e assim, era feliz.

Hoje as redes invadem casas, famílias, relacionamentos. As opiniões estão escritas, maiúsculas e abertas para quem quiser ver. O debate ainda não é visto com bons olhos, afinal optar por acreditar no lado B pode não ser admissível para os agressivos, que terminam o discurso de ódio falando das mães, que não tem nada a ver com isso. Assim, amizades terminam, a discriminação pelo o que é diferente ressurge e até as crianças, que nunca leram um livro na vida, sabem exatamente o que querem para mudar de vida ou ser feliz. 

Enquanto isso, a lucidez dos informados se reprime ou se expõe, e acaba por guerrilhar internamente. Com vontade de apertar o Esc do mundo e sumir, pra sempre.

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